Em defesa da perspectiva materialista da história

Mao-Tsé-Tung, em O Livro Vermelho, traz uma importante defesa do materialismo histórico: “Luta de classes, umas classes triunfam e outras são derrotadas. Assim é a história(…). Interpretar desse ponto de vista é materialismo histórico; sustentar o ponto de vista contrário é idealismo histórico”.

Infelizmente, o idealismo histórico tem sido cada vez mais difundido, obscurecendo cada vez mais o entendimento da história humana. Este fenômeno é produto do crescimento de perspectivas teóricas pós-modernas, que embora se proclamem críticas de qualquer idealismo, constituem-se como correntes teóricas idealistas.

A perda completa do entendimento da história como processo, e não como uma sucessão aleatória de eventos, é a principal consequência da negação da perspectiva materialista da história. Por exemplo, Yuval Noah Harari afirmou em Sapiens: Uma Breve História da Humanidade que: “Forças geográficas, biológicas criam restrições. Mas, ainda assim, essas restrições deixam muito espaço para desdobramentos inesperados, que não parecem ter nenhuma ligação com nenhuma lei determinista… reconhecer que a história não é determinista é reconhecer que não passa de uma mera coincidência o fato de que a maioria das pessoas, hoje em dia, acredita em nacionalismo, capitalismo e direitos humanos.”

É assustador como um pensador de perspectiva histórica tão esdrúxula, obtusa e banal tenha sido convidado para participar do Roda Viva e tenha suas obras altamente desinformadoras e mistificadoras amplamente distribuídas e vendidas, a ponto de alcançarem a alcunha de “best-sellers”.

Isto sem falar que alguns de seus livros já foram utilizados como material didático em escolas, fazendo com que milhares de estudantes aprendam que o processo histórico resume-se a um conjunto de “meras coincidências”.

A raiz do idealismo histórico pós-moderno esta no filósofo francês Jean-François Lyotard, o qual afirma que a ciência, incluindo a história, opera baseando-se em metanarrativas ou metarrelatos. Isto, pois segundo o mesmo o relato é uma sequência lógica de argumentos, que busca o convencimento do interlocutor e não a verdade.

A ciência, por outro lado, tem como finalidade descobrir a verdade. Porém, segundo François, a ciência necessita de um relato para justificar o método científico. Para suprir a ausência de um relato, formula-se uma grande narrativa generalizante que submete as pequenas narrativas à sua vontade, constituindo assim, uma metanarrativa.

Concepção similiar encontra-se na obra de Thomas Kuhn, o autor do livro mais citado em pesquisas acadêmicas na área de ciências sociais, o que demonstra o predomínio do relativismo ontológico no campo acadêmico.

Para Kuhn, cada ciência é baseada em um paradigma, ou seja um conjunto de axiomas e princípios fundamentais. Por sua vez, estes não seriam passíveis de serem verificados pelo método empírico, científico.

Neste raciocínio, a ciência é incapaz de justificar cientificamente o próprio método científico. Tais idéias tem perigosas implicações práticas, já que tal concepção teórica, implica que, por consequência, a verdade objetiva é incognoscível.

Deste modo a práxis, a ação transformadora do homem sobre a realidade é impossível, visto que para transformar radicalmente o mundo, primeiramente é necessário conhecê-lo, apreender uma verdade objetiva, e então exercê-la na prática.

O pensador marxista Lukács soluciona este problema. Toda crítica, é, sobretudo uma crítica ontológica, ou seja dirigida em relação aos paradigmas, nas palavras de Thomas Kuhn.

Ele cita como exemplo a descoberta do sistema heliocêntrico. Embora o geocentrismo fosse uma teoria evidentemente falsa, o sistema geocêntrico conseguia explicar com precisão sistemas de navegação, de plantio e etc, que por sua vez eram empiricamente verificáveis, já que funcionavam na prática.

A descoberta do sistema heliocêntrico só pode ser, deste modo, uma mudança de paradigma, uma crítica ontológica sobretudo.

A perspectiva de mundo pós-moderna, embora se proponha a negar as grandes ideias, as “metanarrativas” e “metarrelatos”, é, na prática uma concepção, paradoxalmente, tanto niilista quanto idealista da história.

Niilista pois nega qualquer possibilidade de se alcançar uma verdade objetiva, reduzindo a história da humanidade a uma absurda banalidade desprovida de sentido. Idealista porquê já que toda corrente histórica e ciência não passa de uma grande narrativa, a realidade é reduzida de toda substância material, tornando-se meramente uma construção social, e, portanto, uma idealização.

Assim como Sócrates, o primeiro grande filósofo, combateu os sofistas que negavam a possibilidade de se alcançar uma verdade objetiva, nós marxistas, como revolucionários, proclamamos defender não uma grande narrativa, mas a verdade, e é por meio da verdade que pautamos nossa ação transformadora e revolucionária.

Fontes :

Livros mais citados nas ciências sociais

Curso Livre Marx-Engels, José Paulo Netto(org.)

Para uma Ontologia do Ser Social, György Lukács

O Livro Vermelho, Mao Tsé-Tung

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, Yuval Noah Harari

Historiografia e Pós-Modernismo, Frank Ankersmit